Prólogo

Página 1 de 2 1, 2  Seguinte

Ir em baixo

Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:50 pm

nas proximidades deLYSYCHANS'K
 UCRÂNIA, 1998





"Our hearts are still the same, stone and ice and steal, lifeless hollow things."


Última edição por Admin em Sab Maio 21, 2016 2:13 pm, editado 2 vez(es)
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:52 pm

Yakiv Skovoroda (moderador) - 331 dias

ㅤㅤㅤUm vento soprava do nordeste, trazendo o frio que já inundava as paisagens Russas para os arredores de Lysychans'k. Havia chovido muito até aquele meio de outono, o que somado à temperatura dava um ar sem vida às pastagens e bosques da região. Tudo era lama, poças de água, folhas alaranjadas, amarelas, marrons que deixavam a tortuosa trilha que vinha do centro da cidade ainda mais perigosa e escorregadia. Mas era uma boa distração para Yakiv, melhor do que se afundar em seus pensamentos obscuros, semi-vivos, e perceber que mesmo que tentasse se enganar, vinha se tornando cada vez menos humano. Talvez fosse por isso que se oferecesse com frequência para ir até a cidade buscar mantimentos, notícias, informações úteis... Estas tarefas tão absolutamente humanas e tão pouco apreciadas por aqueles que viviam lhe despertavam uma quase sensação de fôlego de vida, da alegria preocupada e cheia de silêncio que contaminava a existência. Vinha assim, com a mula em uma corda atrás de si, com os alforjes de lona carregados dos suprimentos para aquele mês. Ela marchava em paz, na mesma quietude do dono, sem ao menos imaginar que o lugar para onde ia, e onde pastava e dormia todos os dias, era o terror de qualquer ser humano. Isso porque em 69, no Ano da Ira do Divino, após o vilarejo ser assolado por uma praga de ratos, de 90% dos seus habitantes terem morrido em decorrência da peste bubônica, os 10% que restaram foram mortos em uma misteriosa enchente do rio Donets que não foi sentida senão ali, naquela pequenina região. Tão curiosa e inesperada foi a morte daqueles camponeses que só depois de dois anos, quando alguns moleques de Lysychans'k foram explorar os arredores da cidade foi que notaram que o resto da população do vilarejo de Vinnyt havia desaparecido totalmente. Encontraram as ossadas formando uma represa (macabra) natural no curso do rio, então deduziu-se a história. Porém o fato nunca foi esclarecido. A vila foi tomada como amaldiçoada e em décadas ninguém jamais ousou voltar a viver por ali. Quando Yakiv e os seus semelhantes chegaram, em 97, além da ação do tempo e da natureza, tudo estava intocado. Eram oito casas dispersar em uma região de aproximadamente cinco quilômetros, isoladas de qualquer outra cidade ou vila por uma distância de dezesseis quilômetros. Era o lugar perfeito para assentarem por algum tempo. No começo eram quase uma centena de encarnados, agora, depois de muito se dispersarem pelo mundo a fora, restavam apenas trinta e quatro em Vinnyt, divididos nas oito residências antigas. Por que ainda juntos? Cada um tinha seu motivo particular, no caso de Yakiv, não conseguia se relacionar com humanos comuns mais. Aquela quase-vida havia lhe transformado em algo completamente diferente do que uma pessoa é, talvez não apenas ele, mas todos. A eternidade palpável e possível é assustadora, cruel, vazia. Não conseguia conceber alguém que não fosse modificado em sua essência por algo daquela natureza. Ainda que todos ali mantivessem uma aparência de vida comum, o homem sabia que com um pouco de esforço era fácil notar que aquilo tudo não passava de uma piada obscura, macabra e de muito mau gosto. 
ㅤㅤㅤA primeira casa que surgiu na distância era a sua própria, sua e de mais três outros. Ainda era princípio da tarde, tudo estava bastante claro, apesar da época do ano. Na realidade, os pássaros até cantavam: era um dia bonito de outono. Mas sem vida como tudo o que permeava Eles. Entrou com a mula pela porta dos fundos, anunciando com um assobio que havia chegado (se habituara a fazer isso desde que encontrara dois de seus companheiros, encarnados homens, num momento que dispensava explicações). Colocou o animal dentro de um dos cômodos que transformaram em um estábulo, para que os bichos não morressem de frio no inverno. Descarregou os alforjes e levou a mercadoria até a cozinha, haja vista que ninguém se manifestara. Tudo o que pairava no ar era o som distante de uma conversa e o cheiro adocicado de batata-doce cozida, ou seria abóbora?... Os corredores escuros, decrépitos não revelaram detalhe algum sobre o almoço, só apuraram a fome que aquele corpo estranho que agora atendia por Yakiv sentia. - Querem me matar de fome. - Anunciou ao romper para dentro do cômodo. Era relativamente arejado, as janelas de madeira e vidro estavam abertas, tal qual a porta que dava para fora. Ainda assim, nem a beleza do dia lamacento e claro podia concertar o estado horrível daquele lugar. Refletia morte e abandono em cada pequeno detalhe. E francamente, os atuais moradores não eram muito zelosos da aparência, nem da higiene. O homem não achava que as outras sete casas estavam em situação muito superior, pelo contrário. - Más notícias da cidade. - Disse em tom enigmático, enquanto colocava no chão as sacolas de papel recheadas de mercadorias. - Tem mais no estábulo. - Pendurou uma corda de cebolas atrás da porta, juntamente com a espingarda que trazia nas costas, e só então puxou uma das cadeiras para se sentar e contar o que havia escutado. Deixaria que outra pessoa guardasse aquela confusão de coisas, estava com preguiça e cansado. - Parece que chegou uma comitiva da polícia de Kiev para sondar os desaparecimentos. - Os desaparecimentos que eles causaram. - E alguns russos também os acompanham. Não cheguei a ver ninguém, mas os boatos estão correndo, e não vai demorar até alguém falar sobre nossa chegada. - Suspirou, levantando-se e indo bisbilhotar as panelas, para ver o que havia para se comer. - Parece que não temos muito tempo por aqui. - Comentou indiferente. Aquela era só metade da aventura daquele dia. Mas a outra parte era um pouco pessoal demais para falar assim, mesmo que de alguma forma pudesse representar algum perigo para todos. O fato é que uma maldita cigana moldavi lhe abordara na rua e insistira em ler sua mão. Quando o fez o terror que lhe pintou o semblante e as palavras incompreensíveis que disse em sua língua natal acusaram Yakiv de algo muito sério. As pessoas olharam, comentaram e a única coisa que o rapaz pode fazer foi chamar a velha de louca e desaparecer, seguido pela mula. Esperava que aquilo não chegasse aos ouvidos dos policiais. Em sua inquietude, foi levantar as tampas das panelas e encarar o cozido desigual e repugnante. Que horror... Pensou sem colocar sua insatisfação em palavras. - É uma pena, porque já estava me habituando à vida aqui. - Era verdade, apesar do estado precário do vilarejo, havia alguma quietude ali que entre os humanos comuns não encontrava. 


Última edição por Admin em Sab Maio 21, 2016 2:14 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:53 pm

[...] (moderador) - 329 dias
ㅤㅤㅤㅤ
ㅤㅤㅤㅤO frio da tarde inundava a sala seguido do vento a rodopiar as folhas ressequidas ao chão enquanto Viktoriya equilibrava-se na cadeira de balanço que rangia ao flexionar levemente os joelhos, afrouxando rapidamente ao relaxar as pernas segundos depois produzindo um novo ranger da madeira, isto se repetindo diversas vezes. Passara a maioria do tempo do dia naquela posição e olhar vago na face demente que tinha. Horas passara a observar aquele sol distante e escuro que sua visão não saberia distinguir entre o laranja ou amarelo, este que mal lhe aquecia a pele tão ridiculamente frágil. O assobio, já conhecido, encheu a casa, a porta entre-aberta facilitou a propagação fácil daquele som agudo.
 ㅤㅤㅤㅤNão ergueu-se na cadeira e mal se mexeu até que ele adentrasse a casa num rompante, novamente outro ranger da cadeira. — Me surpreenderia se não tivesse.— falou calmamente assim que ouviu as palavras do outro, más notícias era algo inevitável e que os rondavam desde... Bem, desde que pisaram os pés naquele planeta tão amaldiçoado quanto eles. A face então mudou a expressão - finalmente - ao ouvir sobre os russos, um suspiro baixo e aborrecido foi dado antes de erguer-se da cadeira barulhenta. — Ajuda das fronteiras... — bufou. — Que tipo de boatos estão a espalhar de nós então? — indagou ao aproximar-se lentamente. Não era o tipo mais ingênuo, porém acreditava mais na ignorância do vilarejo do que qualquer outra coisa sobre os humanos dali. Como ouvira certa vez: "ignorância é uma bênção". Porém, estas bençãos pareciam não cair sobre si ou qualquer um daquela casa. 
ㅤㅤㅤㅤA aproximação cessou assim que buscou por mantimentos nas sacolas ignorando o restante das falas do outro, estava interessada demais no que havia nas sacolas de lona. — Trouxe algo fresco? Frutas? — indagou enquanto retirava a maioria colocando-as sobre a mesa para organiza-las em seguida, era sua vez aquele mês. — Acha que podem provar?— indagava novamente ao enfiar os mantimentos nos armários superiores sem muita organização. — Boatos são apenas boatos. — deu de ombros ao encarar o outro e partir para esvaziar a segunda sacola mostrando muito interesse pela primeira vez no dia - pensando bem, talvez a primeira vez naquela semana. A mão de dedos frios capturou então uma pêra sendo levada aos lábios e instantaneamente abocanhada pela mulher. Inspirou fundo o perfume daquele fruto como quem o faz pela primeira vez, não saberia dizer quanto tempo havia ficado sem aquele sabor nos lábios, de qualquer forma era tempo demais. Saboreou ao com a língua pressionar os pedaços contra o céu da boca sentindo o esfarelar doce, com certeza tal sabor era melhor do que comer cozido de abóbora pelo quarto dia seguido. — Se lamenta demais para algo que ainda não aconteceu, — começou com a mesma letargia de antes. — deixe que venham, o que poderiam fazer contra nós? Nos acusar de insociáveis— abocanhou então o último pedaço da fruta deixando o maior tempo possível na boca. Cortou o cômodo a passos macios até novamente descansar seu corpo apoiando-se contra a parede próxima à janela.


Última edição por Admin em Sab Maio 21, 2016 2:15 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:53 pm

Demyan Zabujko (moderador) - 329 dias
Fazia um frio dos infernos e ela só queria se mandar dali. Não entendia direito a razão de ficar, talvez fosse pela conversa fiada de Yakiv ou a vontade de conhecer o maldito shampoo que Viktoriya colocava no cabelo. Isso era importante? Porra nenhuma, mas Vlada nunca deu a mínima pra explicações. Provavelmente era acomodada, havia sido acomodadíssima em vida, porque abandonaria a apatia morta? -Puta folgada. - Essa voz era dela, mas não era.-Cabecinha de pomba- Damyen. Não era ela, Vlada a pessoa que tirava o pão abrindo as pernas, ops, se enfiando em tudo que tivesse um maço de notas. Não no começo - Michê.- Sentiu Damyen rolar de rir. Será que os outros encarnados tinham hospedeiros tão filhos da puta? Cabecinha de pomba. Cabecinha de vento. Trezentos adjetivos para cabecinhas enchiam sua cabeça agora. Sempre um 'inha', a porra d'um 'inha' diminuindo, diminuindo. Tão pequena. - Vá se foder, babaca - Falou em voz alta. O corpo dele havia se fodido hoje, três vezes. Não precisaria de fodas esse mês.  Já tinha gente ali. Pigarreou. Sentiu o sangue subir. - Não dá pra ficar falando como se fosse o chefe, vão se encher. Um bando de assassinos compulsórios de saco cheio não parece uma coisa legal de se ver. Disfarçou, parando em frente a cadeira de balanço e fechando o casaco. O babaca agora seria para Yakiv, por uma única razão, ele já falava demais mesmo e ela achava Viktoriya bonita demais para ser xingada de qualquer coisa. Achismo que era uma herança da vida como cabecinha de pomba.  Provavelmente alguns vão querer sumir com a polícia de Kiev antes de tirarem os pés desse buraco. Completou com serenidade forçada.  - É uma opção? Eles podem conseguir provas...Anatoli anda se vangloriando de só matar louras de 1,80 e peitos enormes.Seria ótimo se pegassem Anatoli, ou todos. Por que raios não aceitávamos o fato de que morremos, precisamos seguir em frente e etc. Estávamos roubando a vida de alguém  entrando naquele corpo. Roubávamos outras para continuar nele.Problemático.  'Finalmente caiu a ficha? Tu podia me deixar tomar o controle, já reparou que você trepa mal? Que nem mocinha fresca. Não pagam por mocinha fresca. Tô ganhando o suficiente pra não poder repetir o prato. Quando for embora vai ser o quê? Já vai ter passado metade dos meus clientes pro estúpido do Dimitri. Ei, Vlada...Bonitinha essa Viktoriya, hein? Já tentou se encostar com ela? Posso te ajudar nisso ' Aish..Tagarela ferrado. Mais um mês disso e Vlada perderia o medo de morrer pela segunda vez. 


Última edição por Admin em Sab Maio 21, 2016 2:15 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:53 pm

Amelie Chervalier (moderador) - 328 dias
As botas de péssima qualidade pareciam ter aderido ao solo lamacento que antecedia a propriedade, como um prenúncio de novas descobertas agourentas que certamente avivariam o espírito outrora jovial do garotinho que havia sido saqueado de sua própria casca.
- Diabos! 
Cuspiu a palavra invadindo ruidosamente o recinto. Era rude, debochado e espaçoso demais para alguém de sua aparente idade, mas o que poderia fazer? Sergei era um dos criminosos mais temidos das ruas de Kiev, já Vladmir não passava de um garoto raquítico sem muitas perspectivas de ascensão profissional. 
Saudou Yakiv com um gesto curto , ao restante concedeu um gesto mais amistoso, quase sorriu. 
- Senti o fedor do cozido a quilômetros. Fungou, nunca fora exigente com a comida. – Ainda bem. 
Só escutara metade da conversa, mesmo assim considerou o suficiente para inferir que estavam em péssima situação. 
- Eles não precisam de provas, só de uma satisfação para comunidade. Achando um infeliz as provas surgem naturalmente. É a mágica do submundo. 
Encheu um prato com o cozido , experimentando uma porção mínima com o dedo, seu semblante pareceu inalterado apesar da péssima opinião que tinha do cozinheiro e sua obra. 
- Está pior do que os anteriores, isso aqui é mofo? Recolheu o pequeno montinho escurecido e comeu. –É só não assustar quem interessa ou matar o babaca errado, e quando digo babaca errado falo dos cães de Kiev, a polícia. Se fôssemos sensatos daríamos um fim no Anatoly, esse imbecil está nos colocando em risco. Tossiu. – A propósito, sim, é mofo. Continuou a comer de pé, desde que voltara a matéria tivera problemas para se adaptar a muitas coisas, principalmente a perda de pelo menos vinte centímetros. 
- Qualquer inconveniente poderíamos deixar que falem com a Viktorya, eles sequer saberiam o que os atingiu, a boa aparência ou a língua mordaz.


Última edição por Admin em Sab Maio 21, 2016 2:14 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:54 pm

moderador 328 dias
ㅤㅤㅤㅤQuando já quase não podia mais se lembrar do que era uma consciência inteira para si, viu-se a sós novamente. E era desse prazer adquirido através do silêncio absoluto dos meandros de sua mente que Olga desfrutava. Que lhe perdoassem por ser uma ladra, mas a vida era assim mesmo: uma cadeia alimentar onde o mais forte vencia. Nesse caso, a mais forte era Olga ou Olya, ou ainda Matija, a drogada que morrera afogada no próprio vômito. Fria e dissimulada, ela conseguira expulsar à força a antiga consciência daquele receptáculo depois de quase dois anos de luta. A pobre era determinada, mas acabou por encontrar o seu fim. Não era para ser. Ou talvez fosse. Quem é que sabe? Girou sua moeda turca na mão — cinquenta kurush — e em seguida a beijou com um sorriso cínico nos lábios, depositando-a em seguida dentro do sutiã. A brisa que entrava pela janela e circulava o pequeno quarto do segundo andar fazia seus cabelos azuis dançarem miseravelmente. Era verdade que estava frio como os diabos, mas ela não se importava. Aquele gelo cortante que lhe feria os pulsos e os ouvidos e ecoava por todo seu corpo era o que a fazia sentir-se viva uma vez mais. Vagarosamente, passou a língua pelos lábios rachados e esperou um momento após observar o magricela entrar com a mula na casa à frente. Já estava mais do que na hora!, pensou. Então, ergueu-se de seu trono remendado e fofo, que nada mais era que uma poltrona antiga e com cheiro de mofo, e se encaminhou para a sala de estar, onde vestiu uma jaqueta de couro surrada. Assim, Olga atravessou a rua lamacenta e assumindo uma postura imperante à porta da casa, fez questão de fazer sua presença ser notada ao bater os pés no tablado de madeira. Observou as figuras presentes no cômodo e ouvindo a conversa, encaminhou-se até onde estavam as sacolas de papel, as quais Olya inspecionou até encontrar o que procurava, que seriam dois maços de cigarro e uma barra de chocolate com laranja. — Boatos são tudo o que precisam para soltarem os diabos atrás de nós. — Sua resposta veio um pouco atrasada, mas ela não se importava. Se o que Yakiv dissera fosse verdade não demoraria muito para que fossem caçados. E por falar nele, a ladra lançou um cheque furado da década passada em sua direção e piscou. Afoita... Mas o que ele iria fazer? Matar é que não. Sorriu ao levar um pedaço do doce à boca.


Última edição por Admin em Sab Maio 21, 2016 2:14 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:54 pm

ㅤㅤㅤㅤㅤ (moderador) - 328 dias


ㅤㅤㅤㅤQuieto; um objeto no espaço ele era. Não sabia se era mais semelhante a mesa, imóvel e material, que colocavam aquele tanto de merda; ou se era mais parecido a chama bruxuleante do fogão que oscilava em suas cores características, mas ardia. Ardia de forma persistente e perturbadora. De toda aquela conversa fiada tinha uma opinião: perda de tempo. Desperdício de saliva ficar falando sobre algo que todos sabiam qual seria o desfecho. — Desnecessário. — Disse ele, enfim, revelando sua presença que até então estivera oculta. Tão diferente ele era dos demais: magricelas e de pele limpa. E o que havia mais semelhante ali — sendo homem, claro — agia de forma muito esquisita. Se é que estava em posição de julgar, afinal, cada um tinha sua excentricidade particular. A de Aleksei era apenas um bracelete de prata, sempre preso ao seu punho. Tendo finalizado o serviço que a preguiça de Yakiv o impediu de continuar — que consistia em distribuir aqueles lixos que chamava de mercadorias — acendeu um cigarro. — Quando decidirem o que fazer, me avisem. Odeio ter de ficar discutindo tamanha babaquice. — Disse ele. Outras vezes era mais amigável... Mas aquele era um dia ruim. Quem se importa? Nada disso mudava o fato que toda quela tagarelice o irritava. — Deixem que falem com Viktorya...  Repetia um pouco tarde e com nítido sarcasmo. E em evidente zombaria era seu olhar lançado na direção da jovem em questão. — Até parece... — Como se fosse assim tão fácil. Não eram todos que se rendiam ao encanto de uma mulher, afinal. E apostava que Anatoly era um desses. Se tinha uma proposta melhor? Claro que não. Só era resmungão mesmo. Logo, foi a vez de Olga soltar outra típica frase repleta de obviedades. Revirou os olhos. Humanos... E, no entanto, ele também era um. Ou quase. E já que havia sido Yakiv a trazer a fatídica notícia por que não era ele a dar um basta naquilo tudo? Todos ali eram bastante lentos para tomar qualquer atitude, era o que pensava.


Nascido Rurik Oksana, um [url=http://bradley-cooper.org/gallery/albums/movies/American Hustle/Posters/normal_001.jpg]cafetão[/url]. 


Morto por uma puta que o atingiu com um salto 15 no coração. Ϟ
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:55 pm

Yakiv Skovoroda (moderador) - 326 dias


ㅤㅤㅤEra dia bonito de verão, abafado e quente como hálito de satanás. E sendo raros períodos como esse, a parcela mais rica da população viajava para a proximidade dos lagos ou rios para aproveitar as férias. Os pobres por sua vez enchiam as ruas da cidade, numa onda colorida de alegria e falta de bons modos. Havia música por todos os lados e raspadinhas e crianças rindo e casais apaixonados. Tudo muito lindo, sendo assim faciosíssimo se distrair ao caminhar pelo passeio público. E para tornar os fatos a seguir ainda mais escusáveis, vale lembrar que as mocinhas, mesmo que ainda em broto, faziam questão de usar e abusar das roupas curtas e justíssimas para felicidade geral do sexo oposto, de tal modo que não olhar não era tido como algo de bom tom. Danila, com seus recém completos vinte e três anos e hormônios em ebulição, não decepcionava em sua sede de aproveitar a linda paisagem. Ele não era pobre, pelo contrário, porém sua mãe (viúva e amarga) fazia questão de inventar uma nova doença a cada verão para ter uma desculpa para destruir as férias de seu tesourinho unigênito e preservá-lo para si mesma. Era ciumenta do filho e capaz de cortar fora qualquer culhão de dignidade que dava mostras no rapaz, de tal modo que ele não contestava, limitava-se a resmungos que logo cessavam ao passo que uma nova crise de nervos em sua mãe se pronunciava. Já estava habituado a ter suas férias limitadas a caminhadas pela cidade. Mas também não tinha do que reclamar, estava bem provido de atrativos, como já dito. Naquele final de manhã específico, vinha andando do parque, devia estar a mais ou menos duas quadras de sua casa quando virou uma esquina e a avistou. Separados por uma distância que Danila não saberia descrever quantitativamente, ele podia sentir as rodinhas emborrachadas do patins dela fazerem a calçada sob o seus pés vibrar, num som tão macio e constante, uma mistura de corrente de água com um trovão. A vibração lhe subiu pelas pernas, arrepiando-lhe a espinha e enchendo seu estomago de borboletas. Devia ter pensado em algo naquele meio tempo, em desviar ou qualquer solução assim, mas tudo o que fez foi reparar que ela tinha um dos cadarços desamarrados (cadarços verdes gritantes!). Depois reparou nas canelas delgadas, nos joelhos protegidos por um par de joelheiras desproporcionais para a finura daquelas pernas brancas. E então veio o micro short que não devia ter mais de três dedos que tampassem as coxas, que porém, em contrapartida, se erguia até a linha do umbigo, firmando a silhueta em movimento. O umbigo em si estava descoberto, revelando uma discreta convexidade que poderia ser perdoada se analisando o conjunto da obra. E por fim, céus!, uma blusa rosa chá curtíssima que ainda pendia do lado esquerdo sobre o braço da menina. Mas o que mais lhe fascinou naquele recorte  foram os dois botões que compunham os seios daquela criatura abençoada. Eram pequenos como tampinhas de garrafa mas literalmente mortais.  Demorou os olhos ali e teria demorado mais, se o vento não tivesse desmanchado a pintura desgrudando a roupa do corpo esguio. Notou que a menina estava tentando frear os patins e por isso a blusa se afastara do corpo. Fitou os olhos dela, apenas para terminar a análise antes que tudo se desfizesse. Tinha um rosto que, por Deus!!!!11!1, era um anjo. Olhos verdes enormes, sobrancelhas atrevidas, um nariz arrebitadinho, sardas lhe pintando todo o rosto rosado e úmido de suor. Fios do cabelo loiro mal preso grudavam-se nas orelhas, no pescoço e na fronte dela, numa desorganização perfeita. E como protelara a aguardada cereja do bolo, foi mirar-lhe os lábios, mas onde deveria estar a boca, muito cobiçada e imaginada pelo rapaz, uma bola de chiclete gigante se pronunciava. EI! Ela tentou gritar por detrás da goma de mascar, o que infelizmente não funcionou. Acabou por estourar não somente a bolha como também a cabeça de Danila de encontro com o meio fio. Foi uma trombada violenta. Ela caiu pra um lado qualquer, o jovem não teve tempo pra ver. Ficou estirado lá no chão feito um pastel por alguns instantes, olhando para o céu azul, rabiscado por galhos de árvores, sem reagir. Demorou para retornar a si e perceber que algumas pessoas corriam para os atender. A menina chorava, tinha ralado os cotovelos. Demônia, Danila pensara, olhando agora a bocarra aberta daquele diabo barulhento. Não parecia bonita em meio àquele berreiro. Estou bem, estou bem! Ele afirmou umas cinquenta vezes pelo menos, diante das mãos estendidas. Levantou-se, bateu os joelhos, limpou a bermuda e continuou a caminhar, sem sequer pedir desculpas para aquele monstro infernal de patins. A culpa era dela afinal, sejamos sensatos. Assim, seguiu seu caminho, com os pensamentos meio embolotados, estranhamente distantes e confusos. Mas nem deu nota disso realmente, só estava sentindo uma raiva terrível, queria que macacos comecem o cérebro daquela menina. Percebeu que sentia dor nas costas, talvez tivesse quebrado uma costela. Que droga! Subiu a escada para a varanda de casa, entrou sem bater, cumprimentou sua mãe e disse que tinha fome. A mulher respondeu-lhe com um beijinho na testa, dizendo: O almoço sai em cinco minutinhos. Talvez o rapaz tenha consentido, ou talvez não, só lembrou-se de ir até a sala, estirar-se sobre o estofado e fechar os olhos. Céus, estava tão cansado! Respirou fundo e entrelaçou os dedos sobre o peito. Não coloque os pés sujos sobre o meu sofá, Danila! Ouviu a mãe gritar de algum lugar, perguntou-se como ela sabia onde estavam os seus pés, mas sem uma resposta pra essa questão, só obedeceu, desleixadamente. Respirou fundo outra vez. E o tempo passava em câmera lenta sobre sua cabeça, regido pelo tic-tac do relógio do hall de entrada da casa. Um minuto, cinco minutos, um ano, cinco décadas, uma eternidade... E nada daquele maldito almoço sair. Cheirava forte, mas nem sinal dele. Será que não teria ocasião para um pequeno cochilo? Indagou-se, escutando o tic, tac, tic, tac que quase o queria ninar. Mas não, tinha que esperar a comida ficar pronta. Precisava... Então alguma coisa distante cutucou o rapaz e lhe dizendo: ei, tem sangue saindo do seu ouvido, idiota. Daquela vez ele lembra de ter consentido, e quando enfim abriu os olhos assustado com a confusão de possibilidades que estourou em seus pensamentos, não estava mais em si. 
ㅤㅤㅤA cozinha mais parecia uma feira. Era tanta opinião e gente aparecendo que o senso de ordem de Yakiv colapsou e o deixou mau-humorado. Nunca fora muito fã de aglomerações, mas depois de dezenas de anos preso numa solidão ininterrupta, aquela natureza de reunião lhe tirava a boa vontade. E se isso não bastasse, o comentário oportuno da peste do libertino loiro veio lhe deixar mais contrariado. E como era teimoso quando lhe tiravam do sério! Já tinha seus problemas particulares com Damyen, o achava mais desequilibrado do que era socialmente aceitável, mas sempre fizera e continuaria fazendo o possível para não dar mostra da sua insatisfação constante com a existência do outro. Estava longe de ser o tipo de homem que resolvia empasses e desgostos abertamente, assemelhava-se mais àquele acumulativo e de vinganças sorrateiras. Mas esta classe de coisa só aparece quando há ocasião. Até o dado momento, não houvera. Yakiv poderia ser classificado mais precisamente como um sujeito indiferente, até mesmo comunicativo na maior parte do tempo, entretanto orgulho e chato quando as coisas não seguiam pelo caminho que ele julgava o melhor. Mas Deus quisera que ele não fosse do tipo manipulador, era uma negação nesse sentido.  - Os boatos não são sobre nós, Viktoriya. São sobre eles, por enquanto. - Explicou insatisfeito, não com ela e com seu jeito blasé de sempre, porém com a situação toda. Observou-a caçando as frutas nas sacolas e só desviou o olhar quando ela encontrou o que buscava. Afastou-se das panelas, não tinha mais fome, muito menos para aquela gororoba horrenda de embrulhar qualquer estômago. Coisa de Aleksei, tinha certeza, ele quem parecia fazer as tarefas de má vontade sempre (mas quem as fazia direito no julgamento de Yakiv?), outra coisa para se somar a sua listinha de insatisfações. Talvez devesse optar pelas peras também, como protesto pacifico. - Não somos nem nós nem eles, seja lá em quem configure isso, assassinos compulsórios.  Fazemos o que precisamos fazer. - Mas eram assassinos compulsórios sim. E além disso tinham tendências fortes para a insanidade. Mas o homem gostava de fingir que tudo ia bem, que eram pessoas normais. Tratava tudo com uma naturalidade falsa que combinava com seu caráter, sempre aparentemente raso e diplomático. Porém a verdade é que há algo de muito frustrante em perceber que o que você chama de vida é na realidade um monte de lixo sem significado algum. E pior: é ainda mais difícil aceitar isso quando se percebe que já chegou ao ponto de matar outras pessoas para manter sua existência frívola intacta. Como em uma discussão corriqueira, Yakiv já havia ido longe demais para admitir que estava errado e que tudo era vão. Fazia questão de acreditar que vivia muito bem e satisfeito, sem razão para culpas e com um futuro promissor se desenhando no horizonte. - Anatoli não é muito esperto. - Definitivamente não, ele era um cara estúpido e sortudo, o que era por demais irritante. Todos sabiam que uma hora ou outra teriam que se livrar daquele sujeito. Se achava mais do que era e prejudicava os demais. E ainda assim, Yakiv jamais diria uma silaba sobre desejar sua morte. Não sabia em quem podia confiar e por isso não confiava em ninguém. Entre nós e eles, havia uma linha muuuuuito tênue, abstrata. Precisava, portanto, manter as aparências. E ninguém faria isso melhor. - Falou um homem sensato! - Declarou ao ouvir os comentários de Vlad. A cara angelical não enganava, era um sujeito tinhoso, esperto como uma raposa e Yakiv admirava isso. Gostava da coragem com que expressava sua opinião. - Por hipótese nenhuma devemos matar um policial de Kiev ou um desses russos, seria a coisa mais estúpida a se fazer. - Concordou. Quis concordar com os comentários sobre a comida, mas não iria criar uma situação para nada. Havia assuntos mais urgentes para resolver. - A verdade, - começou a dizer ao ser interrompido pela entrada de Olga, mas relevou - é que não importa o que façamos, somos suspeitos em potencial. - Concluiu indo na mesma linha que a maioria. Nem uma conversa com uma das mulheres nuas diante de si convenceria um policial que não eram suspeitos de alguma coisa. - Boatos vão surgir, estamos num lugar maldito e isso parece ser o suficiente pra essa gente ignorante. E isso está longe de ser tudo. Nem vão precisar de criatividade para criar histórias sobre nós. - Disse em concordância com Olga, tomando o cheque em suas mãos. Analisou rapidamente e preferiu não comentar, só lançou um olhar de reprovação para a jovem, embolou a nota e guardou no fundo do bolso, cruzando os braços em seguida. Resolveria isso depois. Então vieram os comentários sempre rabugentos e sarcásticos de Aleksei. Yakiv respirou fundo e tentou sorrir, tinha uma teima particular com esse sujeito também (era dado a desafetos, como se pode notar, mas não devemos culpá-lo somente, as circunstâncias... os anos enlouquecedores de morte...). - Eu estou indo e deveriam fazer o mesmo. Ficar é idiotice. - Anunciou em tom sugestivo. De fato, não havia muito o que se fazer. Loucura seria tentar convencer os policiais.



Nascido Danila Pavlov, morto em 1967.


"On the outside
I'm the greatest guy
Now I'm dead inside "
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:55 pm

(moderador) - 325 dias
ㅤㅤㅤㅤ
ㅤㅤㅤㅤInsatisfeita estava, para dizer no mínimo. Não porque tinha um motivo grande demais para desejar ficar, mas tinha o que não desejava mudar-se novamente. As mudanças sempre a deixavam tão exausta, tinha de se recordar com frequência que seu corpo era frágil, parecia ser ainda mais do que o seu original e isto causava-lhe um mau humor infernal. Inspirou nervosamente com a voz de Damyan fazendo-se audível para os dois, outra vez tão agressivo e obsceno que era difícil não notar-lhe o espírito.Tic-tac tic-tac - começou Delilah em seu pior tom - Você gosta de como ele xinga, não é? Talvez devesse fazer o mesmo. De início não virou, apenas quando Anatoli foi mencionado e a sobrancelha arqueou-se, inquieta, finalmente encarando o outro. — O primeiro que conseguir matar este infeliz do Anatoli estará me fazendo um favor. — Que todas as maldições deste mundo recaíssem sobre aquele desgraçado! Ou talvez você seja a próxima, darling. Uma pena que eu não seja loura. Jogou então o que ainda restara do fruto pela janela, arremessando-o longe observando-o cair fofamente sobre a terra molhada. Ploft. Tempo este o suficiente para ouvir Valdmir derrubar toda a casa com sua chegada, ou talvez nem tanto, ele só era barulhento. Ah, o anão! — Ainda está quente. — comentou rapidamente ao ouvir a menção do magricela sobre o cozido. Não que ela tenha aprovado ou sequer provado, não era atoa que estivera morta de fome até a chegada de Yakiv. Aquela conversação mal havia começado e já estivera de cabeça cheia, cansada de tantos argumentos e por um fio de terem que mudar-se novamente e, claro, Delilah ao soprar-lhe os ouvidos. Mas talvez - pensando melhor por um segundo - não fosse má ideia, um lugar com um sol mais presente, talvez... Que possa dar cor nessa pele mais pálida que as paredes. As atenções de seus pensamentos focaram-se instantaneamente no garoto ao ouvir seu nome. Como? — O que quer diz- — Ok, você entendeu perfeitamente o que ele quis dizer. Inspirou pesadamente com isto, não entendia como ela poderia dar-um-jeito naquilo. Era perigoso demais até para suas ideias. Os olhos pararam rapidamente nos cabelos azuis de outra recém chegada a procurar suas encomendas nas sacolas, também muito bem inteirada do assunto. Gosto da cor. Como conseguiram passar de três para cinco no cômodo tão rápido? Seis. Ah, seis agora que a intragável presença de Aleksei foi notada pelo canto dos olhos da mulher. Delilah estala a língua. Ele e sua falta de noção, conseguia ser insuportável em todos os sentidos e gostava de ser. —Completamente desnecessário.— concordou ao sussurrar a si mesma e com uma dúvida singela em saber se era ou não Dalilah que sussurrara. — Acalma-te Aliksei, não é necessário ter voz aqui. — ironizou encarando o sujeito desinteressada como bem sabia ser. Como você está perigosa, Vicktorrrrrrrrrrriya. Odiava tais menções do homem, raramente colocava sua opinião à tona mas sempre tinha voz para reclamar, muitas vezes um v.s.f. mental - normalmente vindo de Delilah - ajudava a aguenta-lo. As palavras seguintes foram de Yakiv, sempre tentando, à maneira dele, colocar tudo em ordem e sensatez na cabeça dos outros. A certeza que ele deu em mudar-se doeu o peito da mulher. Como poderia tomar uma decisão tão rápido? Se ele fosse, a maioria também iria, era de fato o mais sensato. Os braços cruzaram-se diante do corpo, os olhos agora presos demais na paisagem morta daquele lugar. Com a ponta dos dedos tocou a joia abaixo do primeiro tecido, esta que caía sobre seu peito sustentada por uma corrente fina de prata. Patética. A vontade de calar Delilah era palpável e caso ela estivesse incorporada em alguém, enforca-la ia na melhor oportunidade. A mão livre apoiou-se na cintura, o maxilar cerrado. — E quanto a Anatoli? — indagou aguardando a primeira resposta que viesse ou que não viesse também, não estava tão focada nisto, queria apenas que ele fosse pro quinto dos infernos. E, após isto, em silêncio deixou a cozinha primeiro sumindo pelos corredores, e depois através deles sumindo na paisagem úmida a leste. Um momento sozinha, era tudo o que precisava.




Nascida Yuliya Dolinsky, morta asfixiada pelo noivo em 1969.
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Pavlov dog em Sab Maio 21, 2016 1:55 pm

Demyan Zabujko (moderador) - 325 dias




Demyan não prestou muita atenção na cena que vinha a seguir. Parecia uma conferência ou reunião de homens de negócios. Detestava conferências, nisso ele concordava com a alma que agora o possuía, Vlada nutria amargura ainda maior por essas pequenas formalidades. Um namorado engomadinho talvez?  -Falta uns ternos e a papelada. - Soprou dentro da mente da que lhe possuia o corpo. - Faltou praguejarem em alemão e lerem livros em latim. - Devolveu Vlada, dessa vez não falou. Pra que? Ele morava dentro da cabeça dela mesmo.-Ningu...Demorou três segundos para D. perceber que aquilo foi um cale a boca e deixe de conversa fiada.  - Ao invés de nos preocuparmos com a polícia de Kiev talvez devessemos olhar o que andamos colocando pra dentro. Olhou para o moleque magricela[AYALA/BJS AYALA, DEVOLVE PENÉLOPE AYALA] Acho que o tempo que passaram mortos fez vocês esquecerem que podem pegar infecção intestinal ou morrerem por causa desnutridos. Tive pneumonia mês passado.  Instintivamente virou-se para Victoriya e Olga. Pareciam mais pálidas, quanto aos outros. Aleksei e Yakiv estavam vendendo saúde...'Hey, querem vender meio kg de saúde e 3 dosesinhas dessa tonificação muscular?' - Dou cabo de Anatoli , amanhã. Preciso trabalhar daqui três horas. - Falou sem rodeios e caçando do bolso um papel de seda e uma porção de erva. - O cliente tava querendo um ménage, ninguém aqui tá com vontade de tomar um vinho do porto e comer pato com laranja? Enrolava o papel após espalhar a maconha, tinha quebrado o narguilé na semana passada, quando bebeu demais e tentou voar pela escada. Toda essa parafernália de ser material e depois imaterial deixava os miolos meio confusos. - Vai dividir os meus clientes? Doar tudo pra esses...o que são isso? - Demyan chiou dentro de sua cabeça. Pretendo sair do seu corpo logo, tô meio enjoada de precisar balançar o pau toda vez que mijo, mas até lá? Eu tô no comando, bonitão. -Tenta alguma coisa com essa Victoriya. - Demyan cortou a rabugice. -Depois poderíamos sair pra jantar, Kiev, Moscou. Não vejo você passeando nem de vez em quando. -  Falou para Victoriya. - Sério que falou isso? Sairia com alguém que dissesse isso? Eu nunca falaria isso. Puta magricela e sonsa. Vai se foder sua desclassificada.  Quase revirou os olhos, quase. - Faça-me o favor, espírito de porco. Já vou te dar essa porra desse saco de carne, sabe quantos fizeram isso? Nenhum, NENHUM! Não vou ficar te dando transa com visão panorâmica só porque tá com o pinto aceso. Acendeu o baseado e danou-se a fumar, devagar, sem oferecer a ninguém. Nisso ninguém discordava, Demyen era egoísta e Vlada ? Também. 
__________________________________
Nascido  como Vlada Kournikova, morta em 1997. 
avatar
Pavlov dog
Admin

Mensagens : 74
Data de inscrição : 21/05/2016

Ver perfil do usuário http://reptilianos.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Prólogo

Mensagem por Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 2 1, 2  Seguinte

Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum